em chamas

Não pode o cronista querer fazer da sua coluna uma espécie de mero diário, um simples depósito dos acontecimentos de sua vida morna. A não ser que ele leve uma vida como a minha, em que se explode um fogão na segunda e um prédio na terça-feira. A minha história do fogão já foi contada em verso e prosa, de modo que posso poupar o leitor de ter que passar mais uma vez por essa desventura, que agora eu vejo ser bem pequena se comparada com a que vem aí.

Desde que me lancei o desafio de publicar quinzenalmente aqui no site, me assombrou a idéia da falta de assunto. Apesar de pequena a tarefa de escrever duas crônicas por mês, não queria cair no limbo literário do lugar-comum nem ter que requentar algum texto velho, já sem o cheirinho de coisa nova. Por isso, passei um bom tempo anotando sugestões e pequenos devaneios que poderiam germinar num texto no mínimo saudável. Mesmo quando tudo parece já ter sido dito, é sempre possível encontrar uma brecha a ser explorada com originalidade – porque reescrever as mesmas situações, e ainda por cima de um modo similar, não seria só um erro, seria um erro duplo.

Mas os rascunhos não me agradaram tanto, como sempre, e tive a infeliz idéia de me debruçar na janela pra ver se passava um elefante fugitivo de um circo, um grupo de ninjas escalando árvores, um dragão a duelar com um cavaleiro. E como nada dessas banalidades aconteceram, pensei em voz alta que, no momento, uma catástrofe viria a calhar. Pelo menos eu não teria o trabalho de escolher um fato cotidiano e, num processo de lapidação, inventá-lo e desinventá-lo um pouquinho, até que estivesse pronto para ser um assunto de crônica. Esperei mais um pouco e, desiludido, saí para almoçar. Bastou que eu desse a primeira garfada para me chegar a notícia de que pertinho dali tinha um prédio comercial em chamas. A emissora de TV já chegava no local, os helicópteros se dirigiam para lá e o brócolis me descia a goela.

Culpado pelo incêndio, fui depressa até o local ver se podia fazer algo. E talvez eu pudesse, se tivesse um capa vermelha e soubesse voar. Mas como não é o caso, tudo que me restava era recolher esta crônica, que já se desfazia em fumaça preta. As pessoas que estavam no prédio se refugiavam no telhado. Apesar de não conseguir ver a expressão facial delas (sou míope), imagino que pelo menos uma estivesse calma, pensando em como as coisas são efêmeras. Digo, o sujeito luta para montar o seu escritório e aí vem um moleque e o incendeia com a força do pensamento. Envergonhado, não me senti bem entre tanta gente que se desesperava, botava a mão no coração e dizia “ai meu deus do céu!”. Eu não tive coragem de me declarar culpado, de dizer que eu tinha causado aquilo tudo, e então voltei à janela do meu apartamento, a observar o negro fumacê. Fiquei com remorso, é verdade, e até o fim do dia não atendi telefone nem abri a porta, com medo de ser um policial investigando o caso.

Falando nisso, será que as autoridades leem crônicas, gente? Porque se for o caso, não aconteceu comigo, foi o meu eu lírico, pura licença poética. Eu nem sei do que estou falando. Mas se tiverem que me prender, que seja lá em Brasília. Se é verdade que há males que vêm para o bem, tenho uma sugestão de outros prédios que eu poderia queimar – um par vizinho, escoltado por duas cumbucas, uma voltada pra cima e outra pra baixo, sabe? Vai que dá certo. Quem sabe…


escrever para quê?

É possível que não tenham percebido, mas eu tirei férias, fui pra praia e fiquei uma semana sem tocar no computador. Portanto, faz um tempo que não escrevo nada. Isso porque só sei escrever no computador, minha mão no papel não acompanha o ritmo da cabeça e acabo perdendo muita coisa. O máximo que faço no caderno é tomar nota, aquela frase que surge sem avisar e você deixa tudo de lado para anotá-la, porque é uma ideia genial que no dia seguinte vai ver que não presta. Absolutamente normal. E saudável! Já pensou se todo mundo concretizasse esses rascunhos de meia-noite sem ninguém para dizer que aquilo, meu amigo, está ruim?

O plano era ficar à toa por mais um tempo, mas como o ócio me cansa bastante, resolvi encurtar minha licença e voltar a escrever. Eu só não imaginava que seria um processo tão difícil. Não me refiro àquelas dores típicas de escritor, que abre o próprio peito e arranca o coração para oferecê-lo numa bandeja de prata ao leitor. Eu falo é dessa dificuldade comum, sem floreios – dificuldade de fazer conta de divisão, dificuldade de compreender a crase, dificuldade de ler James Joyce. Era como se me faltasse a técnica, e para compensar isso, era preciso reconquistar a prática, escrevendo umas boas laudas para depois jogar fora, só para aquecer. Constatei, então, mais uma vez, que na verdade eu não sou nada. Quero morrer quando me apresentam como escritor, se não dou conta nem de preencher duas páginas de Word sem sentir fisgar a minha lombar, sem imaginar meus antepassados balançando a cabeça negativamente para mim. E que pode fazer o aprendiz desesperado, senão recorrer aos mestres?

Assim, saí à procura desses guias que os escritores experientes fazem sobre a arte da escrita. São dicas que os burros velhos – com todo o respeito – dão aos poldros. Talvez tenham feito esses textos para economizar tempo, afinal, há tanto misticismo ao redor dos autores que todos eles têm que responder àquelas perguntas onipresentes sobre o processo criativo. No entanto, meus caros autores, preciso dizer que em nada me ajudaram. Eu já sei do tempo da gaveta, sei das palavras na algibeira, do dicionário analógico, da gramática atualizada, sei da leitura em voz alta e até já li sobre a inspiração, mas tem dia que não dá. Não desce. E daí eu me esforço, desafio a tela em branco e só paro pra tomar um Guaraná – aliás, me disseram que pode ser esse o problema e sugeriram substituir o refrigerante por uísque. Só sei que dessa árdua batalha saio sempre vitorioso. Até porque, como costuma dizer o escritor Humberto Werneck, nunca entreguei um texto em branco. Mas tirando o gostinho bom da vitória, sempre me pergunto: escrever para quê? O que eu ganho com isso? Não completam uma dezena os meus leitores fiéis, não recebo cheque e nunca fui publicado em lugar nenhum. Por que, então, emprego tanto tempo num ofício que não me é nem natural?

Porque dizem que o verdadeiro escritor produz pensando sempre nele mesmo, em sua própria satisfação, alheio à crítica. Eu, não. Nunca escrevi uma linha para guardar pra mim. Minha estrutura é para ganhar o leitor, e é nele que projeto as palavras. Não é isso o que a gente faz o tempo inteiro, conquistar pessoas? O músico, por exemplo, tem maior facilidade, porque seu produto é de fácil consumo. O artista plástico também, seu quadro está exposto pra admirarem. Mas o escritor exige um público diferenciado – os leitores são poucos, e muitos abandonam o artigo no meio, esquecem o romance na cabeceira.

Pelo menos uma coisa nesse processo é positivo: o efeito terapêutico. Dar à luz suas ideias é esvaziar a cabeça, dando espaço para novos pensamentos. Mais ou menos como disse Nando Reis em sua canção: tornar o amor real é expulsá-lo de você para que ele possa ser de alguém. É isso. Essa crônica está expulsa de mim, agora é de vocês. E vocês que se virem aí.


quinze minutos de fama

Não é tietagem, juro que não é, mas tem algumas pessoas que me fazem querer seguir suas trilhas. São pessoas interessantes, com quem posso aprender. Às vezes consigo fazer com que nossos caminhos se cruzem, mas nem sempre dá certo. Prepotentemente, resolvi fazer um apanhadinho de ocasiões que não terminaram muito bem com alguns famosos. São os meus quinze minutos de fama, só que ao contrário.

Luis Fernando Verissimo é a única pessoa do mundo capaz de assistir a uma apresentação de maracatu sem nem acompanhar batendo os pés. Ele estava com uma mão segurando a outra nas costas, a cabeça levemente empinada pra melhorar o ângulo dos óculos e um sorrisinho de quem está gostando pero no mucho. Já é sabido que ele é tímido, mas não custa reforçar: ele é tímido. Mesmo assim, resolvi abordá-lo em plena batucada na rua. Na época, eu estava garimpando material para um trabalho sobre Chico Buarque, e descobri que eles eram amigos parisienses. Quando as datas dos refúgios coincidem, um vai tomar vinho na casa do outro. Pedi que me contasse alguma história, uma anedotazinha, qualquer coisa. Ele disse que poderia me mandar uma foto, mas que não se recordava de nada em especial. Ótimo, pensei, uma foto inédita de Verissimo e Buarque. Já era alguma coisa. Trocamos e-mails e dali alguns dias, conforme combinado, escrevi pedindo a tal foto. Quatro dias depois, Luis Fernando Verissimo me responde. Em anexo, uma foto dele com o Ziraldo.

*

Ali na avenida Dr. Vital Brasil, próxima à estação Butantã do metrô de São Paulo, o trânsito fica um pouco difícil. Tem um cruzamento complicado cujo autor faltou em uma ou duas aulas de planejamento. É difícil, na verdade, só pra quem atravessa – só mais um probleminha pra quem já bebe a chuva e atura o sol. Pra chegar ao outro lado da avenida, precisamos passar por dois sinais que não são sincronizados. Quando um abre, o outro já está fechando. Conclusão: a gente corre pra tentar pegar os dois abertos. Quando se está atravessando o segundo, alguns carros já vêm vindo. Eu, que sempre corro esse risco em nome da pressa, um dia senti que não deveria correr – esses avisos que vêm e vão de repente, sem deixar explicações –, e recuei o pé da rua. Nesse momento, faz a curva o carro do músico José Miguel Wisnik, a caminho da USP. Não é todo dia em que se é quase atropelado por gente desse naipe. Tivesse se consumado a tragédia, Wisnik teria olhado pela janela e dito: “ô, garoto, a gente é feito pra acabar!”.

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Em Paraty, durante a FLIP, topei com o jornalista americano Gay Talese na Pousada da Marquesa. Mas não foi um cruzamento qualquer. Foi um de disputa, daqueles que duas crianças enfrentam quando há apenas um biscoito no pote. Nós brigamos durante tantos anos por esse biscoito que, mais velhos, não fazemos questão de pegá-lo – imagine um grupo de adultos deixando intocado o último pedaço de pizza, porque ninguém quer fazer a deselegância. Entre Gay e eu, no entanto, o problema era fisiológico, não gastronômico. Nos encontramos diante da porta do banheiro, apertados. Cortês, Talese indicou-me a porta com a mão que segurava seu chapéu: “please, sir”. Não pude aceitar. Quem sou eu para deixar Gay Talese esperando pra fazer xixi? Abaixei a cabeça e apontei a porta. Ele insistiu, eu insisti, ele insistiu, eu insisti, ele foi e eu fui. Ficou aquele climinha chato de indecisão e por achar que ele recomeçaria todo o ritual, sem jeito dei as costas e fui embora. Não me importo se fui grosseiro, ele nunca mais vai me ver. Eu pelo menos posso contar vantagem, dizendo que fiquei apertado só para que Gay Talese pudesse mijar antes de mim. Meus netos vão adorar saber.

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Não é segredo que eu sou buarquista, buarqueólogo, que sofro de buarquismo. Aprendi a ser fã do Chico numa aula de inglês e desde então não larguei o osso. Encontrei nele uma oportunidade legal de expansão dos horizontes, e foi isso que aconteceu: a partir de Chico Buarque, conheci a literatura russa, a música brasileira, a cubana, o samba, o teatro. Conheci João Guimarães Rosa, conheci a música instrumental, pesquisei história, li poesia, aprendi a beber chope e até me interessei por ornitologia, acreditem. De modo que eu não deixaria passar a oportunidade de conhecê-lo. Sugeri a ele, então, uma data para que eu fosse a uma partida do Politheama. Na época, Chico estava escrevendo “Leite Derramado” e eu disse que sabia como ele ficava recluso enquanto paria romances. Seria isso um problema, Chico? Sua resposta não poderia ser mais típica: “Estar escrevendo não seria um problema, Guilherme, o problema é que em novembro estarei escrevendo em Paris. Imagino que para você fique um pouco fora de mão. Mas teremos tempo, lá adiante”. Paris, fora de mão, Chico? Francamente!


cresça e apareça

Eu não sou nenhum bicho que fica juntando tralha em sua toca, mas de tempos em tempos costumo abrir minhas gavetas e baús para fazer uma limpeza. Passar pra frente livros que não me dizem mais nada, jogar fora a inevitável papelada que se acumula, organizar o álbum de fotos e escutar alguns discos que não me trazem à memória uma faixa sequer. Ponho as bolachas na vitrola e me parece que aqueles não são os mesmos discos de antes. Foi numa dessas que atinei para um fato curioso: já que é impossível que o conteúdo daqueles discos tenha sido alterado, só me resta perceber que eu mudei. Meus ouvidos, minha cabeça. Maturidade, dizem. E é mesmo – com o tempo, passei a ser um pouco mais exigente, a recusar algumas coisas que não dão em nada e só resultam em perda de tempo, no máximo em um bocejo meu. Mas o que é maturidade? Como se faz, quando vem, pra que serve? Isso não sei responder, até porque já entendi que não há uma resposta definitiva. Afinal, maturidade não tem a ver com colecionar respostas, e sim com o questionamento de muita coisa.

Ponto importante: não se pode confundir madureza com velhice. Ninguém precisa ser reclamão pra ser prudente e sensato. Eu sinto que às vezes meus ossos rangem, mas ainda tenho miniaturas do Batman em casa e continuo bebendo Yakult. Aliás, conseguir tomar apenas um Yakult por dia é sinal dos mais fortes de maturidade. Difícil, mas possível. É tudo uma questão de comedimento, coisa que a gente aprende muito quando mora sozinho. O problema é que as pessoas geralmente não compreendem muito bem o conceito de maturidade. Não sou imaturo porque não lavo a louça todo dia – a maturidade, no caso, é saber que ela vai se acumular e que isso será um problema meu. E que terei que dar conta disso depois.

Então, entendendo que maturidade é quando a gente deixa de pensar na pluma e no chumbo pra pensar no quilo, acho que meu primeiro passo de amadurecimento foi quando abdiquei da mamadeira numa cena digna de Hollywood. A criança pega a mamadeira, abre o lixo, faz pose pra foto e deposita entre os restos de comida a sua felicidade, pra que ela vire só mais uma embalagem vazia entre os potes de iogurte e as caixas de cereal. Mais ou menos como o guerreiro que lança a espada amaldiçoada no abismo. O que ganhei com isso? Talvez tenha aprendido que é preciso se desvencilhar de muita coisa na vida, inclusive de gente. Quando me afasto de uma mulher que valoriza canalhas, estou apenas jogando minha mamadeira fora.

O próximo passo talvez tenha sido na escolinha, quando comuniquei à tia Lu que dali em diante eu só escreveria com letra de mão. De quebra, disse também que não mais pingaria os is, porque tinha lá meus princípios. Pode ser que deixar de pingar o i não seja muito adulto, mas por trás disso está uma complexa rede de decisões, inclusive a de assumi-las publicamente e preparar-se para encarar as consequências. No caso, foram leves: a professora riu e sugeriu que eu parasse de bancar o bobo. Desde então, nunca mais me olhei no espelho e me senti sério. Mesmo que estivesse engravatado, eu via ali um bobo, porque sabia que ele não botava pingo no i.

Mas como não ser bobo quando muita coisa ao nosso redor se mostra totalmente imatura? E não estou falando do colega malandro que leva vantagem em tudo ou do tio babaca do churrasco, não. Me refiro a coisas muito maiores. Como por exemplo, as editoras do mundo que até hoje não se decidiram quanto ao nome do escritor russo: é Liev, Lev, Leon, Leo ou Leão e Tolstoi, Tolstoy ou Tolstói. A respeito das quinze possibilidades, Boris Casoy já se manifestou, dizendo que isso é uma vergonha. Pior: cozinheiros dessas redes de fast-food que atropelam nosso raciocínio: “qual ingrediente?, e depois?, que mais?, qual molho?” Dá vontade de perguntar se estamos num restaurante ou numa clínica psiquiátrica.

Então, só pra concluir: toda e qualquer experiência vivida contribui para o nosso amadurecimento, desde que tenhamos a cabeça aberta para refletir sobre as situações. Não é assim? É vendo uma formiga na privada que a gente percebe que precisamos lutar pela vida. E pode ser que uma daquelas mariposas que ficam voando desesperadas no quarto nos ensine que sempre tem uma saída, mas é preciso perceber a janela à frente. Enfim, ninguém precisa ser filósofo, mas tem que crescer para aparecer.


novembramente bem

Dia desses eu me assustei quando, conversando com um amigo, dei uma resposta atravessada, pedi licença para ir ao banheiro e fui embora almoçar, sozinho. No meio do caminho, porém, a sensatez me alcançou e me fez parar: epa!, esse não sou eu! Quis voltar, pedir desculpas e pagar o almoço para ele, mas vi pelo calendário do celular que tínhamos entrado em novembro e então tudo fez sentido. Meu amigo ia me entender – afinal, era novembro. E novembro não quer ver ninguém bem.

Eu não sei o que é nem como funciona, mas desconfio de que meu inferno astral seja em novembro – e começa precisamente no dia trinta e um de outubro, que é quando me dou conta de que, ao acordar, estarei no décimo primeiro mês do ano. Durmo mal e durmo pouco, porque tiro a noite para pensar em quanta coisa ainda tenho para fazer. A vontade é de arranhar meu rosto quando me lembro de todas as aulas, todas as provas, todas as responsabilidades que assumi. Olho para os livros que preciso dar conta e me imagino pegando um avião para outro país, se possível para outro planeta. Mas daí suspiro e digo que não, não posso fazer feio justo agora. É preciso forçar a paciência e reunir o que me resta de vontade para seguir em frente e concluir o ano.

É verdade que tenho vencido meus novembros desde que nasci, mas não tão facilmente. Com a cabeça esgotada e o corpo cansado, faço com antecedência um planejamento das minhas reações sociais: é certo que não tolerarei qualquer tipo de conversa, mas também não posso chutar todo mundo e viver à parte durante trinta dias. Assim, o primeiro ponto que determino é que não falarei sobre o tempo. Não me interessa se está quente, se está frio ou se estava quente e de repente ficou frio. Aos comentários deste tipo, respondo “é” ou, no máximo, “pois é”. Também não falo sobre futebol, política, religião. Procuro me afastar de rodas de conversa para minha cara emburrada não afetar ninguém. Vocês que se entendam aí, e nem precisa me comunicar o que ficou decidido. O curioso é que, paradoxalmente, novembro é o mês em que mais transpareço calma e serenidade, porque “eu te entendo” e “concordo” compõem meu vocabulário cotidiano – assim evito ter que argumentar e discutir. Dou passagem e cedo o lugar para diminuir a probabilidade de situações conflituosas. Até porque não tenho condições de brigar com ninguém em novembro, inclusive acho que pediria licença para ir ao banheiro e iria embora almoçar, sozinho.

Não é por maldade, mas todo copo tem sua gota d’água que faz tudo transbordar. E ainda assim, vejam, é só um derramar silencioso de água, não o estilhaçar do copo. Momentaneamente, desaprendo tudo que pratiquei durante o ano, me aborreço com coisas bobas e me irrito com situações banais. Gente que não compreende a linha nada tênue entre a risada e o berro, por exemplo. Ou coisas mais simples ainda, como dois astrônomos argumentando na tevê os porquês de Plutão não ser mais considerado um planeta. Como é possível que alguém concorde com um absurdo desses? Enquanto eu estiver vivo, Plutão continuará sendo um planeta e acabou. Oras.

Já notei que tendo ao autoritarismo em novembro. Mas eu me controlo, me calculo, e até agora meu rei particular não guilhotinou ninguém, embora tenha decretado que estourar plástico bolha é mais legal que conversar com muita gente. Todos os anos são assim, até que no fim do mês os camponeses se revoltam, depõem o reizinho mandão e instituem uma época de paz e harmonia que vai culminar em sentimentos natalinos.

Portanto, não se assuste se eu parecer triste, impaciente ou grosso em novembro. É porque estou me revisando, me reconstruindo, tomando ar para o mergulho profundo. E nem questione caso você pergunte como estou e eu responda que estou novembramente bem – foi a maneira mais prática que encontrei de dizer que sim, estou bem, mas cuidado, porque é novembro.


morar sozinho é bom, mas não é

Tenho descoberto coisas interessantes sobre a vida. Desde que ingressei na universidade e passei a morar sozinho, me vi forçado a abandonar alguns conceitos antigos e a abrir um pouco a cabeça. É muita novidade pra pouco tempo. Cidade nova, curso novo, amigos novos e, vejam só, casa nova.

Depois de seis meses como hóspede de parentes, vim parar numa simpática quitinete subterrânea de quinze metros quadrados. É quitinete, é subterrânea, são quinze metros quadrados, mas é minha. Pelo menos enquanto o contrato durar. No início, confesso que fiquei um pouco assustado diante da imensidão dos quinze metros, mas o medo passou depois que preenchi o espaço com minhas coisas. E isso não foi nenhum desafio, porque a disposição da casa é a seguinte: entra-se pelo escritório e dois passos adiante está meu quarto. Com um passo à direita chega-se à cozinha e bastam dois para trás para adentrar o banheiro. Daí, acompanhado somente de discos, livros e de Nina (Nina é minha mudinha de lírio-da-paz), comecei a descobrir coisas curiosas.

Vocês sabiam, por exemplo, que o fio dental é algo que precisamos comprar no supermercado? Diferente do que eu pensava, ele não está disponível lá na gavetinha do banheiro ad eternum. Um dia ele acaba, e não se repõe sozinho. Mesma coisa para o pano de chão. Depois de muito uso, ele fica inutilizável de tão encardido, e aí, acredite, precisamos providenciar outro. Não que eu não tivesse familiaridade com o pano de chão, pelo contrário – lá em casa nunca fomos mimados. Mas nunca tive que me preocupar com sua validade e sempre me pareceu o mesmo, embora vez ou outra eu reconhecesse uma velha meia minha.

É verdade que a liberdade é quase impagável (não fosse o aluguel, seria mesmo), e que é saudável permitir-se certos absurdos como, por exemplo, andar pelado ou fritar um ovo de madrugada, mas engana-se terrivelmente quem pensa que morar sozinho é só felicidade. Porque estar sozinho, às vezes, abre espaço para a solidão. Não estou sendo óbvio, não – na minha concepção, estar sozinho é diferente de estar solitário. A solidão é triste, amargurante. É quando não conseguimos preencher nosso vazio interno com discos, nem com livros, nem com reflexões – coisas que fazemos até melhor quando estamos sozinhos. E aí, quando a solidão vem, não tem jeito. Ela demanda um tempo, por menor que seja, para ocupar o coração. E então sinto saudade de muitas coisas, e do meu irmão também. O mesmo irmão com quem muito já briguei por dividir o quarto, hoje sinto falta de ter em casa, nem que seja só para culpar pelo vaso quebrado. O problema é que nem isso mais tem graça, pois não tenho que prestar satisfação se quebro o vaso, e a única pessoa que poderá ficar brava sou eu mesmo, já que respondo por absolutamente tudo que está da porta para dentro (e pelo capacho, do lado de fora).

Outra complicação é não ter com quem contar em emergências. Não sou do tipo que sempre esquece a chave, mas acontece. E da última vez que aconteceu, não fosse o zelador do prédio abrir o almoxarifado e me permitir dormir num sofá sujo e rasgado, eu teria ficado trancado para fora. Isso porque os chaveiros têm o terrível hábito de cobrar o triplo num domingo à noite. Mas, pensando bem, essas aventurazinhas não matam ninguém e até resultam positivas, porque ganhamos experiência de vida. Garanto que me darei bem caso eu participe do Show do Milhão e me perguntem quantos minutos leva para que alguém alérgico comece a espirrar ao dormir num sofá empoeirado.

Em suma, morar sozinho é muito bom, desde que você saiba conviver com você mesmo e entenda que, quando abrir a porta, não haverá ninguém para sorrir e perguntar como foi o seu dia. Mas haverá toda a tranquilidade do mundo para sorrir e pensar em como foi bom o seu dia.


na toca do poeta

“Guilherme, como você preferir. Abr”. Nunca antes na história deste país uma frase mexeu tanto com minha cabeça como essa. Isso porque eu realmente não esperava que Ferreira Gullar fosse perder seu tempo de poeta checando seus e-mails, e muito menos me respondendo. Afinal, aos oitenta anos de idade, o sujeito geralmente se preocupa só com uma porção de pílulas e nem faz idéia de que, na internet, “abraço” vira “abr”.

Depois que caiu minha ficha de que eu ia entrevistar Ferreira Gullar, fingi que abri uma caríssima garrafa de vinho e comemorei bebendo suco de uva concentrado. E assim que combinamos data e horário, liguei para um amigo carioca que ficou de me guiar por aquelas terras, já que eu nunca tinha me aventurado pelo Rio de Janeiro – no máximo uma passadinha na sede do Fluminense antes de uma partida lá no Engenhão. Meu amigo, estudante das letras e dos livros como eu, topou me emprestar seu GPS mental depois de saber que em troca disso eu lhe daria uma conversinha com o último dos grandes poetas brasileiros.

Pois fomos, os dois, andando pela praia até a toca do poeta. No caminho, porém, paramos para visitar outro velho escritor a pegar um bronze num banquinho em Copacabana: Carlos Drummond de Andrade foi bastante solícito e, embora não tenha nos respondido, ouviu tudo o que tínhamos a dizer. Depois deste estático esquenta literário, rumamos, então, ao apartamento de Gullar. No interfone, aparato que destoava daquelas paredes antiqüíssimas, apertei o quatro, depois o dois e esperei que uma voz rouca perguntasse quem eu era. Autorizado, pegamos o elevador e começamos a indagar: será que ele?, e se?, vai que?. Mas deixamos de levantar hipóteses quando Ferreira abriu a porta e nos apertou as mãos. Ele indicou a mesa da sala, disse qualquer coisa e sumiu na penumbra de um corredor estreito.

Não sei se foi coincidência ou se ele se ausentou por querer. Talvez aquele fosse um gesto de um experiente que sabe como funcionam os amadores: no momento em que se vissem sem Gullar dentro de seu próprio apartamento, entenderiam, numa troca de olhares, que não tinham planejado nada. Ele nos deu um minuto ou dois e então se aproximou, desligou a TV que transmitia uma partida de tênis e assumiu seu lugar diante de nós. Tive medo, pois pensei que ele estaria muito cansado para repetir as coisas de sempre – é possível surpreender-se com uma pergunta depois de oitenta primaveras vividas? Mas não. O poeta falou à beça, e senti que diante de mim não estava alguém que participou de todos os episódios decisivos da poesia brasileira, mas um velhinho solitário e carente de alguns dedos de prosa.

Quando perguntei sobre sua curta produção literária, ele começou uma espécie de desabafo, dizendo que sempre escreveu pouco e que não fica forçando a barra como alguns poetas que envelheceram e fizeram poesia ruim, não. Só escreve quando é mesmo necessário. Tanto é que sua obra completa não dá seiscentas páginas – dividindo pelos anos de produção, Gullar escreveu em média dez páginas por ano. E aí me bateu uma tímida vergonha por almejar um livrinho de cem páginas que ao menos parasse em pé sozinho, uma vontade de interromper no meio esta crônica, um anseio de deletar meus arquivos do Word e recomeçar do zero. Essa peneirada agressiva, eu sei, resultaria positiva – somente os textos bons me voltariam à cabeça, e numa versão 2.0, reescritos pelo próprio lápis impreciso do tempo. O tempo, me disse Gullar, faz coisas improváveis. Basta imaginar que, no início, ele foi um poeta de estética alexandrina e só foi descobrir o verso livre, sua marca autoral, depois de ter publicado o primeiro livro. Ou, então, que eu aos doze anos gostava de matemática e até pensava em ser arquiteto.

O tempo nos dá maturidade, tanto para eu entender os porquês de uma mulher quanto para Gullar entender seu processo de criação, que ele batiza de “acaso-necessidade”: quando você começa a escrever, você só tem uma página em branco e a vontade de fazer. A probabilidade é infinita, tudo é possível. Mas as possibilidades são reduzidas quando a primeira palavra é escrita. Surge então a segunda palavra, determinada pela primeira, e aquilo que não era nada começa a se desenvolver e a se tornar necessário. É assim que as coisas são feitas. Difícil é saber quando se deve bater o ponto final. Alguma coisa me diz, porém, que mais ou menos por aqui ele cairia bem.


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